E se eu não quiser cachear?

O-estilo-dos-cabelos-lisos-e-encaracolados

Ultimamente, ou melhor, desde que comecei a entrar nesse mundo de transição capilar e voltei a usar meu cabelo cacheado, eu tenho observado situações e procurado ver a coisa toda de vários ângulos. Quando eu decidi parar de usar química eu não contei pra quase ninguém, não que fosse um segredo, claro, mas eu só comentava se alguém introduzisse o assunto alisamento ou notasse a minha “raiz alta” rs. Geralmente as pessoas tinham duas reações: ou elas diziam o quanto isso era legal, bacana, supimpa, ou elas diziam o quanto eu era corajosa por fazer algo que elas não tinham coragem. Raramente alguém chegava ao ponto da sinceridade de dizer: “Não vai ser fácil, teu cabelo vai ficar acabado, mas depois vai dar muito certo”. E uma, só umazinha disse o clássico “Tu não vai conseguir”.

Mas eu consegui. Passei perrengues e mais perrengues, vontades e mais vontades de desistir, mas tô aqui, com dois meses e meio de BC e descobrindo um cabelo novo.

Pois bem, bela história pra se contar, e quem acompanha o blog sabe que eu já contei  várias vezes sobre como foi a minha transição capilar e etc etc etc. Mas hoje o assunto que eu quero falar é sobre o processo inverso: E se eu quiser alisar?

Não, não eu literalmente, mas qualquer garota/mulher que está sentindo o boom das cacheadas ao seu redor e, por vezes, aqueles olhares tortos sobre alguém que continua passando a chapinha no cabelo.

Tenho observado que da mesma forma que sofremos uma pressão (falando de forma bastante generalizada e superficial) para alisar o cabelo, as alisadas hoje sofrem para entrar em transição capilar e voltar a ter sua cabeleira natural.

Ué, mas a ideia não era se desvencilhar das amarras?

Ser do time das alisadas e não querer se cachear tem sido motivo de comentários tão constrangedores quanto os que eram dados para as cacheadas que não queriam se alisar. E não estou especulando, talvez vocês ainda não tenham presenciado cenas como esta, mas eu já, várias vezes. Então pensem comigo: imagine alguém que nasceu de cabelo cacheado e ouviu durante um bom tempo que ele precisava de um “jeito”, e esse jeito era a química, depois de anos ouve de volta que PRECISA assumir o cabelo natural. Buguei?

Aí vocês respondem: mas sabryna, todas temos que nos aceitar como viemos ao mundo, e deixar de viver um padrão e…

Oooou: mas sabryna, todas podemos fazer o que quiser, não devemos seguir o que socidade manda, somos donas de nossas próprias vontades e…

Enfim, essas coisas.

Agora pensem de novo: imagine alguém que já alisou, já deixou de alisar, e já voltou a usar o cabelo natural, comentar por alto: “estou meio a fim de alisar o cabelo” e ouvir gritos eufóricos dizendo “nãaaaao” “não acredito que vai fazer isso” “que loucura” “mas teu cabelo está tão lindo assim”. Um ponto importante passa despercebeido: nem sempre está lindo para ela como está para nós. Vontades vem e vão e desejos de mudança também.

O ponto que quero chegar é esse: nós, que já passamos pela transição capilar, temos que tomar cuidado para não sermos as mesmas pessoas que nos pressionaram aos alisamentos quando tudo começou. Não sermos as mesmas bocas nervosas que se coçam ao ver um cabelo com química e dizer: “Você TEM que deixar isso de lado” “Você TEM que assumir seus cachos” “Você TEM que parar de usar chapinha” “Você TEM que”. Odiávamos isso, lembram? Odiávamos que nos dissessem o que fazer. Odiávamos quando diziam que nosso cabelo era feio do jeito que estava.

Não precisamos obrigar – com discursos prontos e frases clichês – ninguém a alisar, ninguém a cachear. Um cabelo com química pode estar maltratado pela química da mesma forma que um cacheado pode estar maltratado por um ressecamento. Um cabelo alisado pode estar saudável e hidratado da mesma forma que um cacheado pode ser maravilhoso com Low Poo. Inclusive não obriguem ninguém a aderir ao Low e No Poo também. Sabemos o quanto essa técnica é maravilhosa, mas nem todo mundo está disposto a decorar compostos liberados e proibidos. Usamos shampoo com sulfato a vida inteira e nosso cabelo ainda está na cabeça.

O objetivo desse textão não é criar polêmica e muito menos ser incoerente (se tenho um blog para cachos por que falar de alisamento??), mas convidar para uma reflexão que eu tenho feito desde que entrei nesse mundo crespo. Se alguém lhe parabenizar pelo sucesso da transição, sorria e diga “Obrigada!”, segure a vontade de dizer “Faz também!”. Se alguém lhe perguntar o que você fez para ficar assim, responda gentilmente (e indique o blog, please!! Haha), e resista ao ímpeto de dizer que chapinha acaaaaba o cabelo.

Cada mulher sabe a dor e a delícia de ter o cabelo que tem.

Nós cacheadas devemos ser um time que acolhe quem quer se aprochegar, e não fiscais que obrigam alisadas a se alistarem.

Em terra de chapinha quem tem cachos é rainha.

Em terra de cacheada quem quer alisar não precisa perder o trono.

Marca Sabryna

2 comentários em “E se eu não quiser cachear?

  1. Meu Deus, que texto maravilhoso! Sou negra com cabelo alisado, ainda não me senti preparada para entrar para o time das cacheadas, não sofro com esse novo tipo de pré conceito, pois sou uma pessoa bem despachada (talvez a Patrícia saiba disso!), mas tem que ter respeito em ambos dos lados! Parabéns Sabryna pelo texto!!! Sucesso meninas, cada dia mais orgulhosa! Beijos

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Protected by WP Anti Spam